6/20/24

ENTREMEIO - ARTE E MELANCOLIA

 

O Homem Desesperado (1844–1845) Gustave Courbet 


     

           O artista como ser pensante, mergulha num mundo o qual busca alcançar a sua arte, a pura expressão. Este processo é introspectivo e não lhe é permitido “invasões” racionais que lhe possam tirar do caminho certo. Pensar em arte e sentir arte como meio de expressão íntima e clara só é possível quando se vive o momento de criação de dentro para fora. É um momento singular, quando o artista busca necessariamente se conectar consigo mesmo, deixando uma marca exteriorizada.

 Muitos artistas registram sua marca na história, ao demonstrar em sua arte um olhar e um sentir excepcional, extraordinariamente envolvente, que mexe com o imaginário alheio de alguma forma. No campo da cultura artística, seja na pintura, poesia, escrita e na música, muitos alcançam um patamar admirável. Seja uma pintura ou estilo inovador que caminha junto com os séculos e enobrece o nome de seu autor, como Marcel Duchamp com o Ready Made nas Vanguardas Históricas, ou mesmo Van Gogh com a técnica do Impressionismo e Pontilhismo, que fizeram história. Belas e introspectivas poesias que demonstram nostalgia e melancolia, ora se fazem fruto do medo e das frustrações da vida, como os Sonetos da Portuguesa Florbela Espanca. Escritos fictícios que envolvem mistério e temores que rondam o imaginário dos leitores, como os contos sombrios de Edgard Allan Poe. Músicas que nos inspiram, trazendo sentimentos inquietantes ou que nos revelam o nosso lado passional já adormecido, como o grandioso cantor e compositor canadense Leonard Cohen, cantando “Waiting For The Miracle”, que toca a alma de seus admiradores com sua voz marcante. Estas obras sublimes ficam pairando no tempo e nunca se desfragmentam, elas se tornam imortais.

A conexão que o artista faz com sua obra, por meio de sua visão exterior se eclodindo com o seu olhar interior, traça um momento sublime de criação. Um momento que pode imortalizar uma obra. Mas se uma obra é imortal, por sua vez o seu criador é mortal. E mortalmente complexo ele pode ser ao mergulhar em seus devaneios e angústias. Seres dotados de tamanha sensibilidade artística, esculpidos e lapidados no tempo, mergulham em sentimentos triviais, demonstrando que são feitos como nós, carne e osso. Seria sua sensibilidade tamanha, que seu olhar não pudesse suportar a dura realidade que nos concerne? Depressão, suicídio, loucura, boemia, obscuridade, poderiam ser fugas de um mundo não suportável?

A voz esplendorosa de Leonard Cohen escondeu por um tempo as dores da depressão. Florbela Espanca se rendeu ao suicídio já anunciado em seus sonetos. Van Gogh perdeu a lucidez e se afundou nas loucuras da alma, este, só veio a ter o trabalho reconhecido após a sua morte. A boemia de Marcel Duchamp não lhe trazia estabilidade emocional, cultivando relações passionais e turbulentas. Edgard Alan Poe e sua escrita obscura, o encarcerava num mundo de introspecção e sombras, o que culminou em uma morte misteriosa e sem respostas. Estas questões ficam ainda a vagar e a buscar respostas que não acalentam os ouvidos. São questionamentos constantemente retratados pela mídia, em documentários, em biografias, no cinema, etc..Porém o fator relevante é que a tremenda exposição do artista talvez reflita todos esses holofotes que lhe são direcionados, e suas fraquezas anunciadas ao grande público.

Se por um lado o artista pode sucumbir, sua obra permanece invicta. Se ele é mortal, sua obra é imortal. Mas, talvez a imortalidade de um grande artista se faz presente na grandiosidade de sua obra, ela o eterniza, o faz sobreviver ao tempo. Para quem olha uma obra de arte, a visão é de um período de ascensão, por mais rodeado de temores que ele possa ser, a frente disso prevalece um porque, um sentido, um olhar que a criou, que não se restringe ao ato de ver, mas de sentir, de preservar a sua essência, de ser imortalizar.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

http://youtu.be/Y-E53gmeO-8 (Leonard Cohen - Waiting For The Miracle) Uma câmera escura atrás de outra câmera escura (Entrevista com Evgen Bavcar- Por Elida Tessler eMuriel Caron) 

DIAS, Karina. Entre visão e invisão: paisagem [por uma experiência da paisagem no cotidiano]. Brasília: Editora do Programa de Pós-graduação em   Arte, 2010.

http://pt.wikipedia.org/wiki/Florbela_Espanca

http://pt.wikipedia.org/wiki/Edgar_Allan_Poe#Morte

http://pt.wikipedia.org/wiki/Marcel_Duchamp

http://pt.wikipedia.org/wiki/Leonard_Cohen

http://pt.wikipedia.org/wiki/Vincent_van_Gogh